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O canto do coração

É mais uma vez Ione Buyst que nos ajuda a aprofundar o método da leitura orante, aplicando-o ao canto litúrgico. Na Revista de Liturgia nº 138, Novembro/Dezembro de 1996, há um importante artigo da autora, intitulado Canta em teu coração, sobre a importância do canto como vivência espiritual, experiência de fé e oração, superando o "cantar pelo cantar". Ou seja, não basta cantar bem o texto, nem executar os ritos objetivamente, mas é preciso assumir pessoalmente o que a ação ritual e os cantos nos propõem, fazendo acontecer em nós hoje, aqui e agora, o que a liturgia celebra. Isto supõe uma atitude interior, um modo meditativo de cantar, um envolvimento corporal e afetivo, mental e espiritual, integrando todo o ser, de forma que o encontro pessoal e comunitário seja um diálogo orante com o Senhor. Para que haja esta atenção amorosa à Palavra e integração ao mistério celebrado, o caminho é a meditação, seguindo os passos ou dimensões da Leitura Orante, conforme já descrito. Assumindo e atualizando em nós o sentido do texto e da música, deixamo-nos tocar pelo Senhor, e sua graça vai tornando pascal nossa vida.

Para que aconteça essa experiência litúrgica e espiritual na prática, algumas orientações, em nível pessoal, mas também comunitário, sobretudo para as equipes de canto:
a)    Escolher cantos adequados e bonitos melodicamente, de boa qualidade, com textos bem elaborados, de conteúdo bíblico e litúrgico, que sejam orantes, dialogais e ajudem a assembleia a mergulhar no mistério celebrado, levando em conta a Palavra, o momento ritual e o tempo litúrgico, mas que também traduzam a vida e a realidade da comunidade.
b)    Vivenciar cada canto como gesto ritual, isto é, prestando atenção ao lugar que ele ocupa na celebração, se é canto de abertura, penitencial, salmo de resposta, aclamação, comunhão ou outro, porque cada canto tem um caráter diferente, dependendo do objetivo, do momento ritual, da festa do dia. Interpretar, saborear, rezar, entrar no canto e deixar que o mesmo  nos penetre o ser inteiro...
c)    Superar o "cantar por cantar", cantando com o coração, deixando que o Espírito cante em nós, como aconselha o apóstolo. Se o coração é o "lugar da decisão vital que compromete a pessoa como um todo... lugar da misteriosa ação de Deus... lugar da experiência religiosa" (citado por Ione Buyst no livro "Liturgia, de coração" - Editora Vozes, 1994), é dentro de nós que vai repercutir o canto novo, fazendo nova nossa vida, conforme Santo Agostinho.
d)    Sentir-se parte da assembleia, cantar como comunidade, a uma só voz, numa só alma e num só coração, como nos convida a Liturgia.  Em Jesus Cristo formamos um só corpo, realizando a comunhão entre nós e com o Senhor, união e sintonia favorecidas pelo canto. A voz do povo deve ser ouvida, nunca abafada por vozes que se sobressaem ou por microfones em altíssimo volume...
e)    Equilibrar os cantos novos e antigos, dosando-os e voltando a eles sempre de novo, por ocasião dos tempos fortes ou das festas, a cada ano. Também os refrãos contemplativos, hoje tão apreciados na liturgia, são um meio valioso de oração e diálogo com Deus, e cuja repetição faz a mensagem penetrar mais profundamente na memória do coração.
f)    Perseverar no método da leitura orante, apesar das dificuldades, dos momentos de desânimo, da busca do mais cômodo e menos trabalhoso. É preciso ter paixão pela liturgia, desejo sincero de conversão, de cantar no e com o coração, disciplina e disposição interior, para continuar firme e fiel, seguindo as orientações do Espírito mais que nossos gostos pessoais ou o que é mais fácil.
g)    Exercer com amor nosso ministério litúrgico-musical, ajudando a comunidade celebrante a também rezar cantando e cantar rezando, vivenciando no coração, espiritualmente, a música e o canto. É tarefa dos compositores, instrumentistas, cantores, salmistas, equipes de canto, enfim de todos os ministros da música, dedicar-se a este serviço essencial com amor e entusiasmo.
h)    Aproveitar os momentos de ensaio do grupo, e antes da Celebração, com o povo, para analisar e  meditar o canto, sobretudo se for novo, aprofundando o sentido da letra, sua função na liturgia, relação com a Palavra... Durante a celebração, cantar de forma orante, vivenciando a música como oração, eventualmente com alguma motivação, introduzindo um ou outro canto, para despertar na assembleia os sentimentos que a mensagem traduz e expressa. O importante é que o canto favoreça a oração, nos introduza e faça mergulhar no mistério de Jesus Cristo que celebramos.

A Liturgia é um mistério que nos ultrapassa e supera infinitamente, e mais do que com a razão deve ser compreendida e vivida com o coração. Cristo é seu principal sujeito e nós, como comunidade celebrante, vamos aprendendo a celebrar, guardar e servir este tesouro dos admiráveis mistérios do Senhor, assumindo uma atitude litúrgica orante e contemplativa,  fazendo acontecer em nós o canto do coração!


 

Ir. Miria T. Kolling